segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Aché católico a mexer com você

Vejam o video primeiro


Parece a olho nú, ou gringo (o que os brasileiros chamam a todos os estrangeiros, por simplificação), que é mais um hit da Ivete, pronto a enlouquecer as pistas de Torres Vedras em Fevereiro próximo. Completamente, não.
Se não (e de facto não, porque se não, não o dizia ali atrás), vejamos: a Jake entra de rosa nos estúdios da TV Aparecida para apresentar o seu novo single no Vozes da Igreja. Até agora tudo bem, mas aquelas miúdas a fazerem uma aula de body combat lá atrás lançam a primeira pedra de todo o mistério por trás do video. São as únicas de preto neste quadro animado da Agatha Ruiz de la Prada.
Depois o Refrão:
Po para com po
Po para com po aí
Bis até parecer que começa a cansar

Isto quer dizer, pelo menos para os Baihanos: Pode parar com o pó, ou pode parar de cheirar cocaína.
Depois, para quem não entendeu logo a mensagem da Jake, ela começa a explicar a sua visão dessa calamidade que detona silenciosamente a sociedade:

Vai estragar sua vida não faz isso não

Tua juventude vai para o beleléu

Tem outra saída

O teu lugar é o céu

Entendam que "para o beleléu", em Portugal se substituiria por "pró caraças", no Porto "pó caralho" e na Madeira "pró quaralho".

Finalmente, para gente sem a escolaridade mínima, Jake usa uma parábola bíblica:

Você tem que tomar

Uma overdose de Jesus

Injectar na sua veia

O sangue que morreu na cruz

Você tem que tomar

Uma overdose de alegria

Aché que na doidão doidão

Se liga, se liga, se liga

Os dois últimos versos continuo ainda hoje sem entender, mas uma coisa é certa: desde que vi este video, fiquei ligado na TV aparecida e nunca mais os leilões de sémen de boi, em directo no Canal Rural, me impressionaram.

Revejam e conheçam assim como passo as minhas tardes de chuva em São Paulo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Já viram gilberto madaíl a limpar o pó de uma garrafa de champanhe?







O brasil anda com uma crise de pontas-de-lança igual a portugal, mas em todas as posições.
Ainda assim, se ganharmos posso morrer, ou o amor ao futebol aqui não matasse mais que o Dengue.

Cardana, parabéns

Adio a minha ressureição por aqui como quem se prepara para começar a dieta. Mas hoje senti o chamamento - Cardana, o único torrense que não admite o artigo definido antes do nome, faz anos. "Google do Oeste" como eu gosto de lhe chamar baixinho, foi o primeiro a animar-se com as minhas masturbações no teclado e essa imagem é tão horrivel de imaginar quanto simpática.
Deixei de escrever porque o Brasil e São Paulo deixaram de ser uma aventura a cada dobrar de esquina, para ser uma rotina, incrivel, mas até as rotinas incríveis amolecem um tipo. "Aqui já não sou somente um distante contacto esquecido no facebook", pedindo as palavras emprestadas a A. Cruz, porque o que mexe com este país é o Orkut. Sou sim um português sem pressa para nada, no meio de vinte milhões de pessoas a correrem para o trabalho ou a dormirem em cima de um cartão, de quem todo o mundo se ri desde o dia em que lhes trouxemos as piadas de alentejanos e eles as adaptaram para todo o português. Um dia o português salta de avião com a mochila de primeiros-socorros, no outro constrói casas redondas para não mijar nos cantos.
Não é facil viver num país que chama àquela história da menininha perseguida por um lobo enquanto leva bolinhos à avó, de O Chapéuzinho Vermelho; ou onde o tigre amigo do Calvin se chama Heroldo porque dizer Hobbes arranha a garganta (isto entre pessoas que se chamam Janclô, porque o pai adorava o Van Damme, ou Valdisnei em honra à Walt Disney, é meio esquisito). E somos gozados por construir casas redondas. Parece que nunca lhes deu a vontade de fazer chichi enquanto estavam bêbedos.

Mas passou muito tempo e não vou falar de tudo ao mesmo tempo. Hoje falo das melhores coisas que me lembro, amanhã das coisas assim-assim e depois do Dengue que me vai deixar aqui numa valeta.
Sem dúvida que o que vivi de mais inolbidábel neste últimos tempos (perdoem-me os gramáticos, mas esta palavra só funciona com sótaque da ribeira) foi uma paixão goiana, claramente mais quente e exótica que qualquer merda platónica; e um hino de portugal tocado a solo de guitarra no meio de um churrasco com emigrantes portugueses. Melhor que uma sardinha a desfazer-se na braza entre uma maminha de boi e uma meia lua de picanha, só isso tudo mais uma guitarra distorcida a guinchar "levantai hoje de novo", como se o Zé Cabeleira tivesse chegado de surpresa àquele aniversário em Osasco. Chorei por dentro, mas agora não sei se não foi a gordura da sardinha a escorrer e eu era uma broa de milho.

Não temo em acreditar que este último parágrafo será a melhor posta de poesia emigrante que alguma vez escreverei na vida, porque afinal também sou "um natural de Torres Vedras [que] se constrói, se destrói - obrigado A. por me ajudares nas partes intimistas. E o que me tem realmente absorvido nos ultimos tempos são os joguinhos do macaco a comer bananas o mais rápido possível para ganhar ringtones contra o outro macaco, ou o tipo alterofilista, ou o já velhinho RPG para acertar em 5 telemóveis em 30segundos e ganhar acesso a um site de publicidade.
Este sim é o problema por trás de todas as experiências de intercâmbio: muito tempo livre.
Até mais breve que o costume.
E história do dengue é mentira; quanto ao resto, "será real?" - foda-se toy, és a luva de veludo com que estico o dedo do meio para as pessoas que amo. Saudade

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O silêncio ganhou a guerra de Tróia, meus amigos


E talvez seja por isso que não digo nada à praticamente um mês.
Na verdade, esta lição de vida ensinaram-me num banheiro público em Tiradentes. Um grupo de rapazes, cujo chulé de certeza que também já tinha cheiro a cachaça, esperava ansiosamente que alguém saísse da privada, retrete ou sanita. Começaram a preocupar-me também a mim porque estava com uma vontade dos diabos (e isso é uma coisa que eu levo a sério) e os putos estupidos não se despachavam e chamavam pelo amigo cada vez mais desesperados - não era vontade, mas preocupação. Ninguém respondia lá de dentro.
3 minutos depois, ouvimos a fechadura a abrir e os miudos guincham de alívio enquanto eu projecto na mente a imagem de um tipo vomitado até aos pés. Acontece que sai um velhote sorridentemente bêbedo dizendo: "O silêncio ganhou a guerra de Tróia, meus amigos. Ah?".
Acontece muito em Minas Gerais, teres um amigo dos copos 50 anos mais velho que tu e eu gosto disso. A cena inter-geracional do alcoolismo é fortíssima neste país e no mundo. Só quem nunca apanhou um bom bebedo sexagenário a desenrolar a sua enciclopédia de saber de tasco sobre si [o ouvinte, e vá lá, sobre ele próprio também] é que pode discordar de mim.

Isto aconteceu bem no meínho de 10 dias óptimos de passeio com 2 franceses, um carro alugado e o lonely planet, onde comecei por passar brilhantina no ego com OS GRANDES FEITOS DOS GRANDES BANDEIRANTES E GRANDES NAVEGADORES PORTUGUESES a darem novos mundos ao mundo, novos filhos às índias e novas chicotadas no cú durido dos escravos. Falo das cidades coloniais de Minas, logo acima do estado de são paulo ou a primeira à esquerda como quem vai para o rio de janeiro. Foi dali que em 10 anos se retirou 1/3 de todo o ouro que circulava no mundo, do final do séc.XVIII até meados do séc.XIX.
A região é linda, com muitas cachoeira, frango com quiabo e gente hospitaleira que fala sempre no singular. "Olá 'mores, vocês quer ir nas melhor cachoeira do Brasil?". Para quem não sabe, é isto.


Teria sido um dia incrível, passado no meio dos montes, se não nos tivessemos perdido na trilha até ao rio e em vez de meia hora demorássemos 2h30.
As cidades dalí são o ex-libris das cidades histórica do Brasil, mas não passam de cópias das velhas vilas portuguesas, mas sem régua nem esquadro. Os tipos ainda não deviam saber como é fix terraplanar, de forma que só os glúteos das miúdas é que gostam realmente de passear pelas ruas dos centros históricos. Ainda assim, as 23 igrejas de Ouro Preto dão luta ao centro do Porto, e Congonhas (não, não é isso), o maior ponto de peregrinação do país, vende mais água benta e roupa barata que Fátima.

Congonhas - subindo o morro até à magistral Igreja do Nosso Senhor de Matosinhos, famosa pelas esculturas dos 12 apóstolos do mestre brasileiro da escultura do séc.xix - o Aleijadinho. Va-le a pena dizer ao Luis, que era um tipo meio monga cujas extremidades do corpo foram encarquilhando e esses 12 apóstolos já foram feitos com os materiais de trabalho amarrados ao corpo.



Ouro Preto - Esta, faz-se passar por coimbra de forma escandalosa. Até repúblicas tem. O nosso hostel ficava bem no meio da floresta - aquela casinhota que aparece do lado direito da primeira foto, no cantinho direito. No café da manhã, ou pequeno almoço, numa varanda com uma vista deliciosa sobre a cidade e o Pico de Itacolomi, aquele falo do lado esquerdo da segunda foto, tinhamos beija-flores a debicar umas coisas que a malta pendura no tecto, com mel e com o formato de flor (o momento mais querido do Boi gordo, se não tivesse dito falo).

Depois de enchermos o saco com talha dourada e frango com inhoque, quiabo ou tapioca, deixámos Minas Gerais em direcção à Costa Verde, um pouco a sul do Rio. Muitos brasileiros tinham-nos dito que é por ali que se encontram as melhores praias e cús do brasil, não podiamos perder.
Perdemo-nos sim mas durante a viagem, que era para ter 6h e passou a 10. Só me assustei realmente quando anoitecia (a ideia era nao conduzir de noite porque, os camiões metem medo e os buracos às vezes chegam a meio palmo de profundidade). Estavamos a passar pertinho do Rio mas queriamos deixar isso para outra viagem, sem carro. Eu conduzia prudentemente há 5 horas sem parar e metemo-nos numa estrada horrivel com carros e camiões a ultrapassarem dos dois lados e até pela berma da faixa contrário. Decidimos parar e perceber de uma vez por todas que estavamos num sitio tipo Arrentela, mas do Rio de Janeiro. Arredor sujo e... foda-se, do Rio.Demos meia volta e correu tudo bem.
Descobrimos praias do fim do mundo, até que nos disseram que a praia do Caixadaço é que era. Cortámos à direita em Patrimônio e descemos uma montanha a pique até avistarmos uma praia tipo do Max mas do caralho (esta pode haver quem não entenda e aí, como diria o baba: "desculpa lá"). As indicações diziam para seguir, cruzar um riozinho com o carro até ao vilarejo de Trindade. Na outra ponta do lugar tinha mais uma praia, essa tipo a da formosa mas com tartarugas.
Ainda não tinhamos chegado ao sítio certo, para isso era preciso pegar uma trilha de 20min pela mata até ao destino final.


Depois de uma barrigada de sol, vamos à procura da piscina natural que dá nome à praínha e metemo-nos em mais 20min de floresta até chegar aqui.

Ao voltarmos, não resistimos a uma casinhota no meio da floresta que vendia caipirinhas. Completamente escondido de tudo, um tipo de 40 anos fazia-nos as caipirinhas de maracujá com um baseado a pender-lhe dos beiços. Pergunto-lhe se conhece algum sitio em que se durma na vila e o gajo diz-nos que tinha ali umas cabanas que construia à 18 anos com o lixo que chegava à praia.

A primeira, onde dormimos os 3, era a VIDA. A segunda era a ALEGRIA. Não deixem de reparar como os garrafões de vidro permitem que a luz entre pela divisória. E junto ao telhado eu acho que é uma janela de um carocha.

Acabamos por decidir-nos a ficar ali, apesar de ainda lhe faltarem alguns vidros de carros para completar as janelas.
Ele vem connosco até à vila pegar as malas e é então que me lembro de que à noite teriamos que voltar da vila por aqueles caminho impossíveis.

Peço-lhe uma lanterna e o tipo diz: Sim, claro. Pega numa lata de conserva e cola uma velinha na parede interior, com resina. Fecha a tampa, presa por um cantinho e conforta-me: "Só tens é de pegar em baixo, porque em cima fica muito quente".
Vamos jantar na vila como se não tivessemos que andar 40min pela floresta para voltar para a cabana VIDA. Conhecemos uma galera que nos convida a ir até à fogueira que iam fazer na praia. Mexemos o quadril com os sambinhas e as bossas dos gajos, bebemos gabrielas (cachaça com cravo e canela), roçamo-nos numas cabritinhas (desculpem, isto é só porque ficava bem) e fumamos umas coisas até que me lembro dos 40 minutos de trilha com a velinha. Acho que nos despedimos deles e começamos a caminhada mais hilariante de sempre.
Logo na primeira das duas trilhas perdemo-nos duas vezes e perdemos 5 das 6 havaianas que calçavamos. Ao fim de 1h30 chegámos à cabaninha exaustos e cheios de vontade de beber a garrafa de vinho que miraculosamente não havia desaparecido no meio das escorregadelas do caminho.

A latinha, o Pierre-Louis e a Anne-Sophie ou The fuckin' french

Na manhã seguinte acordamos e o gajo, que entretanto tinhamos sabido que era conhecido na vila como Zé Doideira, preparava-nos uma sororoca grelhada em folha de bananeira, no seu fogão a lenha.


No final do almoço começam as comichões que me acompanharam até à dois dias, vejo as preguiças empalhadas pelo Zé Doideira naquilo que ele chamava d'"o gosto por explorar a natureza", fazemos surf e mergulho e dois dias depois voltávamos à selva de sempre com a voz mais grossa e com vontade de usar só uma tanguinha de tarzan para apanhar o onibus que vai para a faculdade.



sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Não me importava de ser careca de rabo de cavalo se fosse rico

Passaram demasiadas coisas desde a ultima vez que escrevi. É que nesta NY latina, perder os travões da consciência é demasiado fácil. O problema cá, seja que dia for, é escolher entre as várias hipóteses de concertos, teatros, festivais, exposições ou mais uma festa gay.
É verdade, o milhão de gays que povoam o estado de são paulo mina as melhores festas da cidade e com uma pontualidade estranha por estes lados, todos os dias por volta das três da manhã, rola o bacanal. Tudo pega, de japa lésbica a negrinho transsexual, e pelo que me explicaram "é só preciso soltar-se, mano"(é verdade, o mano pegou tambem de estaca por cá).
Foi num ambiente desses que vivi um dos momentos que incorporará o melhor capitulo da minha vida. No Glória, a balada ia feroz e o dj misturava CSS, Justice e funk brasileiro como quem faz mandioca. Depois de combinar uma ida a Buenos Aires para ver um bélico boca junior-river plate, com um tipo colombiano, dançava com os poucos atributos que a minha terra natal me deu. Estava animadissimo porque tinha acabado de encontrar casa para ficar e a caipirinha com saké. Decidi experimentar os sofas da discoteca e claro, adormeci.
Acordo e os meus amigos e o meu casaco tinham desaparecido. Corro a discoteca toda, mas o casaco tinha mesmo fugido com o meu celular portugues. Senti-me obviamente traído por esses dois pedantes que me tinham deixado incomunicavel e de t-shirt. Saí da discoteca pior que estragado e meti-me num taxi. O cara topa que eu estava um farrapo e diz-me: "aí campeao, vou-te animar". Baixa a pala do sol que estava diante o lugar do pendura, onde eu choramingava, e surge um dvd player instalado alí. Um gadget do caraças como podem imaginar.
PLAY, e começa um filme porno agressivissimo a precisamente um palmo e meio de distancia da minha cara. Os gemidos vinham de toda a parte do carro porque o gajo tinha um soround do caraças e eu acabo por mandar uma gargalhada mais longa que o coito.
No final nao percebi a historia, porque aquilo já ia a meio quando ele pôs play, mas o telefone e o casaco já estavam bem enterrados debaixo do momento mais bizarro da minha vida.
Isto passou-se já à duas semanas e entretanto fui um fim de semana À praia mais proxima daqui - 1h40 de bus - Guarujá. Todos os paulistanos me disseram que era ruim e nao valia a pena. As minhas expectativas estavam numa praia entre carcavelos e matosinhos. O que se me apresenta, todavia, é a melhor praia em que alguma vez fui, com agua quentinha, tartarugas a passearem-se pela costa, um calor patético e um calçadão impecável. Isto no meio do inverno.
Nos proximos tempos espero contar-vos a minha ida ao rodeo - o equivalente à tourada para os brasileiros.
Pois, esqueci-me de falar sobre o título, mas é simples. A desigualdade no brasil é uma coisa tão gasta como o por do sol. Saio de minha casa todas as manhas e posso escolher o café da esquerda onde, por 2,5 reais(1,10 euros), bebo um expresso fraquinho; ou o café da direita e bebo um café em copo de cantina, sacado de um termo de alumínio e já com açucar, por 0,80 centavos (28centimos). Mas a quantidade de barcos desportivos, quartos a alugar por 800euros, casarões dignos do cribs (cercados por redes electrificadas) e restaurantes onde comes uma filete por 18euros, é de loucos. A ostentação dos poucos que têm muito é incomparavel com as galinhas da linha de cascais (ou da foz para quem é das tribos do norte onde os mouros nao chegaram). É então essa a grande ambição do povo brasileiro, parecer-se com o americano de miami, vestir um camisa branca grande e usar rabo de cavalo no fundo da careca. Daí que esta seja a cidade em que não se discutem modelos de carros mas de helicopteros. Nomeadamente já tenho um amigo cujo pai trocou agora de helicoptero.
Para quem gostar muito de mim, de tal forma que sinta que o blog nao chega, o meu unico contacto agora é oo551181848777. Com um amor do caraças por vocês e pelo Palmeiras, adeus.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Writers paulistas



Não há rua que não esteja pintada. O chato é para orientar-me, porque a cada 3 dias a
rua parece outra e perco-me.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ato terceiro: quando começam as aulas e levo a primeira facada


São Paulo é um tipo fudido. Pode-se imaginar a vida por cá pensando na vida em Portugal mas em World Class (para quem não jogava Fifa 98, é igual a dizer no nível mais alto de dificuldade). As horas de ponta põem os olhos de todo o mundo a arder com o pivete de alcool queimado - é o combustível mais usado por cá. Podes ver passar três autocarros que querias apanhar mas que já chegam à paragem com um passageiro de braço de fora, preso entre as portas. As chuvadas são tão repentinas e ferozes que te podem surpreender numa esplanada onde apanhavas sol à cinco minutos, deitando as mesas todas ao chão - aconteceu-me e acabei por fugir sem pagar. Os mendigos estão simplesmente deitados no chão a dormir, como quem apanha banhos de sol mas sem toalha da praia. E os bares de salsa só têm dançarinas que parece terem deixado o cóxis juntamente com o casaco, no bengaleiro à entrada. Arrumam qualquer europeu junto ao balcão das caipirinhas.
As aulas começaram e a coisa é bem relaxada - basta dizer que à dez anos se fumava nas salas de aula e havia um cinzeiro junto ao quadro, para quando o professor precisava de escrever alguma coisa.
Entretanto, o que me tem ocupado mais é a procura de quarto. Terça feira encontrei um, bem junto a Vila Madalena e decidi ir até lá a pé. Depois de uma hora a andar, que corresponderam a um centímetro do mapa do centro da cidade, chego numa casa com aspecto horrível. O tipo abre-me a porta, leva-me a uma espécie de galinheiro que chamava quarto e a primeira pergunta que faz é: Fuma maconha? - Respondo que esporadicamente, em festas, nunca comprei.
Responde o gajo aos 20 segundo de conversa:
- Então esqueça, não aceito consumidores de droga. É que imgine dois cães. Um recebe todas as festas e brincadeiras enquanto o outro simplesmente não existe para o dono. Quando você chega em casa, como é que eles reagem? Claro que só o cão que recebe atenção é que vem ter consigo.
O que acontece é que eu sou o cão mau [28 segundos].
- Então se é o cão mau, boa tarde [30 segundos].
Errei por São Paulo mais duas horas e com os pés desfeitos, a soar e a apanhar chuva, peguei um taxi para ir ver um quarto que já tinha combinado. Chego à rua e ligo ao gajo:
- Ena cara, esqueci de o avisar que veio ai uma "mina" (gaja) esta tarde e ficou coom o quarto.
Tinha acabado de gastar 10 euros de taxi para aquilo.
Assim levei a primeira facada, de fininho.
Entretanto hoje já vi um quarto bem legal e amanha tenho outro que soa bem, na calha.
A foto é a paisagem típica de SP. Arvores majestosas a rebentarem entre a maior massa de cimento, alcatrão e betão que já tive oportunidade de conhecer.

sábado, 2 de agosto de 2008

Ato segundo: onde conheço a balada e o melhor soundsystem de sempre


O problema de estar vivendo num hostel com uma catrefada de italianos e alguns franceses é que os italianos falam insuportavelmente alto e italianos e franceses adoram electro, camisas e clubs.

Foi numa de "taste the erasmus flavour" que acabei por ir jantar num boteco bem chunga com eles, por 2 euros, e de seguida ir para o The Edge - "best electro club in São Paulo on thursdays" - pagar 20euros não consumíveis. Lá dentro, gatas até dizer chega e sem merdas. Festinhas na cara, puxoes, risadas parvas e eu com 4 euros no bolso a ter de ficar bebedo para entrar no som. No banheiro, tem um segurança bem em cima dos urinóis que não te deixa descansado. Tive de mijar sempre como se estivesse a digitar o pin na caixa multibanco, e não passou muito disso.
Ontem, fui num soundsystem de cair o queixo. No lady hell, o Jamboree (blog de musica jamaicana de malta de são paulo) celebrou mais um aniversario e que balada terrivel que foi. Colunas a deitar pó por todo o lado, até ao tecto, e tudo analógico. Válvulas, estás a ver? Uns moleques dançando como só na jamaica e mais gatas com patilhas. É mesmo o único problema dessas festas. As skins usam uns dos cortes de cabelo mais feios que já vi. Diria pior que o gajo de UHF.
A festa ficava na baixa, e foi a primeira vez que la fui. Não tem nada tão frenético assim na Europa. Transito de morte às tres da manha, milhares de pessoas e o metro a abrir as 4h30 da manhã.
Aquela história do "vais para lá, vais-te perder" nunca achei que fizesse tanto sentido.
Fica ligado, e não esqueça de ler isto com os erres ingleses.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Ato primeiro: conseguir chegar e comer frango à passarinho

Este será então o meu blog para experienciarem um pouco de São Paulo.
Espero escrever pouco nele, sinal que terei mais que fazer. Prometo que não usarei frases feitas nem proverbios, seja dos tradicionais ou daqueles à Gato Fedorento. Gostava de arranjar um cantinho no blog para deixar boas palavras que aprendi mas não sei fazer isso. Limito-me a convidar-vos a ler este blog sempre com os erres à inglesa como no Sertão (ou como nos habituámos a ouvir o Murtosa falar). Vou dar este link tambem ao meu pai, por isso de vez em quando posso ser chato a descrever coisas como a talha dourada da igreja de São Paulo. Haverá poucas fotos porque aqui a vida é para duros e eu nunca dei sequer um cabelo por uma fotografia.

A viagem começa com uma ressaca digna dos melhores carnavais. Depois de cinco dias de festa furiosa em sines, a dormir em praias, parques de estacionamento e jardins, era dificil arranjar pior forma de arrancar para uma viagem de 30 horas. Fiz escala em Buenos Aires e até aí foi a viagem mais fudida por causa da dor de costas infernal (talvez resultantes daquelas cenas de porrada com o Baba - aproveito para lhe desejar uma boa viagem para Beijing). Depois dessa travessia a fazer lembrar 1500, as malas nao apareceram. Imaginei que tivessem perecido com escrobuto, mas hoje já me disseram que estão de boa saúde e as vão enviar.
Na viagem de taxi com um japones ao volante, conheci o estadio da Portuguesa e do Palmeiras, o transito mais impressionante do mundo e alguns segredos do scolari, que tinha andado no mesmo taxi em que eu estava,fazia um mes.
As motas passam assustadoramente rapido no meio do transito e perguntei se era costume haver acidentes, ao que ele respondeu com um sorrizinho na cara: "morre um ou dois por dia" - e acrescentou - "há muitos paneleiros em Portugal?". Parece que a luta entre taxistas e motards por aqui é pior que na Palestina.
Cheguei ao hostel onde estou agora e uma brasileira perguntou-me se a podia ajudar a desmontar um movel em casa dela. É lá que conheço a maconha brasileira e descubro que me metia na maior alhada do mes. Um puto armario que nao era Ikea, até ao tecto. Lá dentro, um triciclo travou-me a vontade do que quer que fosse. Foi ela que me falou da terra do boi gordo, lá para o interior, "onde o negócio é carne".
Depois de lhe desmontar o armário (isto soa "fucking cagalhoes") ela quis oferecer-me uma seia. Fomos num boteco beber uns chopps e ela pede um frango à passarinho. Aparece um frango inteiro e inteiramente frito, sem mais nada. Saímos a cambalear pela rua wisard, virámos na harmonia e fomos dormir na Girassol. Não caga estilo esta américa latina?
A balada ("festa rija") fica para amanhã. Espero que não se tenham esquecido de ler isto com os erres ingleses.

Amor