
E talvez seja por isso que não digo nada à praticamente um mês.
Na verdade, esta lição de vida ensinaram-me num banheiro público em Tiradentes. Um grupo de rapazes, cujo chulé de certeza que também já tinha cheiro a cachaça, esperava ansiosamente que alguém saísse da privada, retrete ou sanita. Começaram a preocupar-me também a mim porque estava com uma vontade dos diabos (e isso é uma coisa que eu levo a sério) e os putos estupidos não se despachavam e chamavam pelo amigo cada vez mais desesperados - não era vontade, mas preocupação. Ninguém respondia lá de dentro.
3 minutos depois, ouvimos a fechadura a abrir e os miudos guincham de alívio enquanto eu projecto na mente a imagem de um tipo vomitado até aos pés. Acontece que sai um velhote sorridentemente bêbedo dizendo: "O silêncio ganhou a guerra de Tróia, meus amigos. Ah?".
Acontece muito em Minas Gerais, teres um amigo dos copos 50 anos mais velho que tu e eu gosto disso. A cena inter-geracional do alcoolismo é fortíssima neste país e no mundo. Só quem nunca apanhou um bom bebedo sexagenário a desenrolar a sua enciclopédia de saber de tasco sobre si [o ouvinte, e vá lá, sobre ele próprio também] é que pode discordar de mim.
Isto aconteceu bem no meínho de 10 dias óptimos de passeio com 2 franceses, um carro alugado e o lonely planet, onde comecei por passar brilhantina no ego com OS GRANDES FEITOS DOS GRANDES BANDEIRANTES E GRANDES NAVEGADORES PORTUGUESES a darem novos mundos ao mundo, novos filhos às índias e novas chicotadas no cú durido dos escravos. Falo das cidades coloniais de Minas, logo acima do estado de são paulo ou a primeira à esquerda como quem vai para o rio de janeiro. Foi dali que em 10 anos se retirou 1/3 de todo o ouro que circulava no mundo, do final do séc.XVIII até meados do séc.XIX.
A região é linda, com muitas cachoeira, frango com quiabo e gente hospitaleira que fala sempre no singular. "Olá 'mores, vocês quer ir nas melhor cachoeira do Brasil?". Para quem não sabe, é isto.

Teria sido um dia incrível, passado no meio dos montes, se não nos tivessemos perdido na trilha até ao rio e em vez de meia hora demorássemos 2h30.
As cidades dalí são o ex-libris das cidades histórica do Brasil, mas não passam de cópias das velhas vilas portuguesas, mas sem régua nem esquadro. Os tipos ainda não deviam saber como é fix terraplanar, de forma que só os glúteos das miúdas é que gostam realmente de passear pelas ruas dos centros históricos. Ainda assim, as 23 igrejas de Ouro Preto dão luta ao centro do Porto, e Congonhas (não, não é isso), o maior ponto de peregrinação do país, vende mais água benta e roupa barata que Fátima.

Congonhas - subindo o morro até à magistral Igreja do Nosso Senhor de Matosinhos, famosa pelas esculturas dos 12 apóstolos do mestre brasileiro da escultura do séc.xix - o Aleijadinho. Va-le a pena dizer ao Luis, que era um tipo meio monga cujas extremidades do corpo foram encarquilhando e esses 12 apóstolos já foram feitos com os materiais de trabalho amarrados ao corpo.


Ouro Preto - Esta, faz-se passar por coimbra de forma escandalosa. Até repúblicas tem. O nosso hostel ficava bem no meio da floresta - aquela casinhota que aparece do lado direito da primeira foto, no cantinho direito. No café da manhã, ou pequeno almoço, numa varanda com uma vista deliciosa sobre a cidade e o Pico de Itacolomi, aquele falo do lado esquerdo da segunda foto, tinhamos beija-flores a debicar umas coisas que a malta pendura no tecto, com mel e com o formato de flor (o momento mais querido do Boi gordo, se não tivesse dito falo).
Depois de enchermos o saco com talha dourada e frango com inhoque, quiabo ou tapioca, deixámos Minas Gerais em direcção à Costa Verde, um pouco a sul do Rio. Muitos brasileiros tinham-nos dito que é por ali que se encontram as melhores praias e cús do brasil, não podiamos perder.
Perdemo-nos sim mas durante a viagem, que era para ter 6h e passou a 10. Só me assustei realmente quando anoitecia (a ideia era nao conduzir de noite porque, os camiões metem medo e os buracos às vezes chegam a meio palmo de profundidade). Estavamos a passar pertinho do Rio mas queriamos deixar isso para outra viagem, sem carro. Eu conduzia prudentemente há 5 horas sem parar e metemo-nos numa estrada horrivel com carros e camiões a ultrapassarem dos dois lados e até pela berma da faixa contrário. Decidimos parar e perceber de uma vez por todas que estavamos num sitio tipo Arrentela, mas do Rio de Janeiro. Arredor sujo e... foda-se, do Rio.Demos meia volta e correu tudo bem.
Descobrimos praias do fim do mundo, até que nos disseram que a praia do Caixadaço é que era. Cortámos à direita em Patrimônio e descemos uma montanha a pique até avistarmos uma praia tipo do Max mas do caralho (esta pode haver quem não entenda e aí, como diria o baba: "desculpa lá"). As indicações diziam para seguir, cruzar um riozinho com o carro até ao vilarejo de Trindade. Na outra ponta do lugar tinha mais uma praia, essa tipo a da formosa mas com tartarugas.
Ainda não tinhamos chegado ao sítio certo, para isso era preciso pegar uma trilha de 20min pela mata até ao destino final.

Depois de uma barrigada de sol, vamos à procura da piscina natural que dá nome à praínha e metemo-nos em mais 20min de floresta até chegar aqui.

Ao voltarmos, não resistimos a uma casinhota no meio da floresta que vendia caipirinhas. Completamente escondido de tudo, um tipo de 40 anos fazia-nos as caipirinhas de maracujá com um baseado a pender-lhe dos beiços. Pergunto-lhe se conhece algum sitio em que se durma na vila e o gajo diz-nos que tinha ali umas cabanas que construia à 18 anos com o lixo que chegava à praia.


A primeira, onde dormimos os 3, era a VIDA. A segunda era a ALEGRIA. Não deixem de reparar como os garrafões de vidro permitem que a luz entre pela divisória. E junto ao telhado eu acho que é uma janela de um carocha.
Acabamos por decidir-nos a ficar ali, apesar de ainda lhe faltarem alguns vidros de carros para completar as janelas.
Ele vem connosco até à vila pegar as malas e é então que me lembro de que à noite teriamos que voltar da vila por aqueles caminho impossíveis.

Peço-lhe uma lanterna e o tipo diz: Sim, claro. Pega numa lata de conserva e cola uma velinha na parede interior, com resina. Fecha a tampa, presa por um cantinho e conforta-me: "Só tens é de pegar em baixo, porque em cima fica muito quente".
Vamos jantar na vila como se não tivessemos que andar 40min pela floresta para voltar para a cabana VIDA. Conhecemos uma galera que nos convida a ir até à fogueira que iam fazer na praia. Mexemos o quadril com os sambinhas e as bossas dos gajos, bebemos gabrielas (cachaça com cravo e canela), roçamo-nos numas cabritinhas (desculpem, isto é só porque ficava bem) e fumamos umas coisas até que me lembro dos 40 minutos de trilha com a velinha. Acho que nos despedimos deles e começamos a caminhada mais hilariante de sempre.
Logo na primeira das duas trilhas perdemo-nos duas vezes e perdemos 5 das 6 havaianas que calçavamos. Ao fim de 1h30 chegámos à cabaninha exaustos e cheios de vontade de beber a garrafa de vinho que miraculosamente não havia desaparecido no meio das escorregadelas do caminho.
A latinha, o Pierre-Louis e a Anne-Sophie ou The fuckin' frenchNa manhã seguinte acordamos e o gajo, que entretanto tinhamos sabido que era conhecido na vila como Zé Doideira, preparava-nos uma sororoca grelhada em folha de bananeira, no seu fogão a lenha.

No final do almoço começam as comichões que me acompanharam até à dois dias, vejo as preguiças empalhadas pelo Zé Doideira naquilo que ele chamava d'"o gosto por explorar a natureza", fazemos surf e mergulho e dois dias depois voltávamos à selva de sempre com a voz mais grossa e com vontade de usar só uma tanguinha de tarzan para apanhar o onibus que vai para a faculdade.
