quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ato terceiro: quando começam as aulas e levo a primeira facada


São Paulo é um tipo fudido. Pode-se imaginar a vida por cá pensando na vida em Portugal mas em World Class (para quem não jogava Fifa 98, é igual a dizer no nível mais alto de dificuldade). As horas de ponta põem os olhos de todo o mundo a arder com o pivete de alcool queimado - é o combustível mais usado por cá. Podes ver passar três autocarros que querias apanhar mas que já chegam à paragem com um passageiro de braço de fora, preso entre as portas. As chuvadas são tão repentinas e ferozes que te podem surpreender numa esplanada onde apanhavas sol à cinco minutos, deitando as mesas todas ao chão - aconteceu-me e acabei por fugir sem pagar. Os mendigos estão simplesmente deitados no chão a dormir, como quem apanha banhos de sol mas sem toalha da praia. E os bares de salsa só têm dançarinas que parece terem deixado o cóxis juntamente com o casaco, no bengaleiro à entrada. Arrumam qualquer europeu junto ao balcão das caipirinhas.
As aulas começaram e a coisa é bem relaxada - basta dizer que à dez anos se fumava nas salas de aula e havia um cinzeiro junto ao quadro, para quando o professor precisava de escrever alguma coisa.
Entretanto, o que me tem ocupado mais é a procura de quarto. Terça feira encontrei um, bem junto a Vila Madalena e decidi ir até lá a pé. Depois de uma hora a andar, que corresponderam a um centímetro do mapa do centro da cidade, chego numa casa com aspecto horrível. O tipo abre-me a porta, leva-me a uma espécie de galinheiro que chamava quarto e a primeira pergunta que faz é: Fuma maconha? - Respondo que esporadicamente, em festas, nunca comprei.
Responde o gajo aos 20 segundo de conversa:
- Então esqueça, não aceito consumidores de droga. É que imgine dois cães. Um recebe todas as festas e brincadeiras enquanto o outro simplesmente não existe para o dono. Quando você chega em casa, como é que eles reagem? Claro que só o cão que recebe atenção é que vem ter consigo.
O que acontece é que eu sou o cão mau [28 segundos].
- Então se é o cão mau, boa tarde [30 segundos].
Errei por São Paulo mais duas horas e com os pés desfeitos, a soar e a apanhar chuva, peguei um taxi para ir ver um quarto que já tinha combinado. Chego à rua e ligo ao gajo:
- Ena cara, esqueci de o avisar que veio ai uma "mina" (gaja) esta tarde e ficou coom o quarto.
Tinha acabado de gastar 10 euros de taxi para aquilo.
Assim levei a primeira facada, de fininho.
Entretanto hoje já vi um quarto bem legal e amanha tenho outro que soa bem, na calha.
A foto é a paisagem típica de SP. Arvores majestosas a rebentarem entre a maior massa de cimento, alcatrão e betão que já tive oportunidade de conhecer.

3 comentários:

Andre Novoa disse...

Grande Miguel! É com grande entusiasmo que leio os teus posts deliciosos! Realmente, trata-se de nacos de prosa dignos de uns bons transportes públicos. Só é pena eu andar de carro... Um grande abraço!

Anônimo disse...

Realmente só tu pra retratares São Paulo como se tudo fosse normal, olha olha, até dá gosto ler, snif snif :P
bjs grandes

Anônimo disse...

Mary prima claro!!! Ahhhh e esqueci-me de um pormenor importante: 1 beijinho e meio pra ti :D